NORTADA: Quem vai cuidar de nós, os idosos de amanhã?

 

Nos últimos dias têm sido foco de especial atenção por parte da comunicação social, alguns estudos que apontam para um preocupante ritmo de envelhecimento da população portuguesa.

Um relatório elaborado pelo Eurostat, mostra que a percentagem da população portuguesa, com idade igual ou superior a 65 anos, aumentou 3,6% apenas numa década (2007 – 2017). Esse mesmo estudo revela ainda que daqui a 30 anos, ou seja, em 2050, Portugal será o país mais envelhecido da União Europeia.

Esta situação levanta enormes desafios à nossa sociedade e deveria ser merecedora de especial atenção por parte dos nossos decisores políticos. Algumas agências de rating, como é o caso da Mody’s, realizaram estudos que apontam que o crescimento económico de países como Portugal será nulo ou negativo, por força do enorme envelhecimento da mão de obra, caso não ocorra uma grande reviravolta no crescimento da produtividade.

As questões económicas, revestem-se de uma importância tal, que até os partidos de esquerda, atualmente no poder, parecem estar rendidos. No entanto, a preocupação que estes dados demográficos nos suscitam, não deve de forma alguma esgotar-se aí.

Quando falamos de idosos, além de nos referirmos a uma faixa da população que abandonou o mercado de trabalho, falamos também de um grupo que tende a necessitar de cuidados especiais.

Este envelhecimento da população resulta essencialmente de dois fatores: diminuição da taxa de natalidade e aumento da esperança média de vida. Temos assim uma componente negativa, pois nascem cada vez menos crianças, e uma componente positiva na medida em que vivemos mais anos.

Mas mesmo esta componente positiva merece uma atenção mais cuidada. Em Portugal, a esperança média de vida verificou um acréscimo muito grande nas últimas décadas. Um avanço civilizacional que, fruto de vários fatores, de entre os quais a evolução da medicina e dos cuidados prestados aos idosos, fez-nos atingir patamares de longevidade que nos colocam entre os melhores, com os homens a viverem, em média, até aos 78 anos e as mulheres até aos 83 anos (fonte: Eurostat, 2017).

Mas quando nos fixamos na qualidade de vida, em termos de saúde, a partir dos 65 anos, verificamos que o panorama não é tão positivo. Um estudo apresentado recentemente pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, utilizando dados do Eurostat de 2017, mostra que em Portugal, após os 65 anos de idade, os homens tenderão a viver apenas 8 anos de forma saudável e os outros 5 com problemas graves e as mulheres contarão apenas com cerca de 7 de vida saudável, ao que se seguirão 11 anos de vida com acentuados problemas de saúde.

Temos assim uma realidade que aponta para uma média onde os homens precisarão de cuidados especiais nos últimos 5 anos de vida e as mulheres nos últimos 11 anos.

Para estes números muito contribuem certamente os problemas das demências e todas as doenças a elas associadas, que são um exemplo claro da falta de atenção dos nossos governantes. A sociedade civil, através das IPSS, tem lutado para acompanhar este fenómeno com as necessárias respostas. Mas o Estado tem falhado, não acompanhando, não apoiando, nem criando condições para que essas respostas cresçam e cheguem a número maior de pessoas.

Certo é que os nossos idosos, atingidos por essas problemáticas, precisarão cada vez mais e por mais tempo de respostas adequadas e de cuidadores especializados.

Em grande parte do nosso território, esta problemática do envelhecimento atinge níveis ainda maiores, com destaque para interior do país, onde a percentagem da população idosa supera em muito a média nacional. Importa referir, a título de exemplo, que as previsões mais alarmantes indicam que em Portugal, em 2060, a percentagem de idosos com mais de 65 anos, atingirá os 37%. Pois bem, essa é já, hoje, a realidade de alguns concelhos, como é o caso de Melgaço.

A um crescente número de idosos a precisarem de cuidados, corresponde uma diminuição de população ativa capaz de prestar esses cuidados. A este ritmo, dentro de um par de décadas, a população ativa existente nestes territórios será claramente insuficiente para cuidar dos seus idosos. Nesse momento, não serão apenas os mais jovens a abandonar os territórios, por falta de oportunidades, como também os mais idosos terão que sair, à procura de cuidados e de cuidadores.

Será esta mais uma fatalidade  a que os territórios de interior estão condenados? Certamente que não. Mas os responsáveis locais e regionais têm que assumir claramente a estrutura etária dos seus territórios e promover políticas que visem criar condições, incrementar o apoio às instituições que persistentemente continuam a ir ao encontro desses idosos, conciliando as respostas tradicionais com outras mais inovadoras.

 

Aparentemente existe algum preconceito por parte desses responsáveis políticos. Agem como se o assumir que os seus territórios estão envelhecidos, representasse o assumir do fracasso das suas políticas. Não é da responsabilidade com o passado que estamos a falar. É da responsabilidade com o presente e com futuro.

Apenas tendo bem presente a estrutura etária das nossas populações podemos definir políticas e estratégias conjuntas, respondendo às necessidades das populações, de uma forma proporcional, projetando o futuro, acautelando uma vida melhor para todos. No entanto, se analisarmos os orçamentos municipais, verificaremos que na grande maioria destes territórios de interior, o investimento nestas áreas representa uma fatia diminuta do bolo.

É verdade que o futuro são as crianças. Mas é igualmente verdade que o futuro somos também nós, os idosos de amanhã.

 

Jorge Ribeiro

(texto publicado na edição impressa de 1 de Novembro do jornal “A Voz de Melgaço”)