NORTADA: São apenas velhos

Hoje escrevo triste, hoje escrevo zangado. Questionei mesmo se devia fazê-lo, pelo que aqui posso dizer, fruto do meu estado de espírito.

Por estes dias, muito do que a minha geração e as gerações mais novas tinham por garantido, desmoronou-se. Nunca imaginamos que um dia poderíamos estar doentes e não ter um médico que nos atendesse. Aliás, se o atendimento demorasse mais do que achávamos aceitável, diríamos que era uma vergonha, que os nossos direitos não estavam a ser respeitados.

Hoje tudo mudou. De repente ficamos todos mais humildes e compreensivos. Ou quase todos. Tenho de excluir uns ou outros que continuam a aparecer na televisão a falar de direitos, como se nada de diferente estivesse a acontecer. Mas desses falarei noutra altura, se ainda for pertinente, se as organizações que esses uns e outros representam ainda existirem.

A pandemia que assola o mundo, veio mostrar-nos o mundo de uma perspetiva desconhecida. Uma perspetiva onde todos somos iguais. Onde não interessa a marca do carro estacionado na nossa garagem, ou que país planeamos visitar nas próximas férias.

Um século depois da última grande epidemia, a gripe pneumónica (ou gripe espanhola, como ficou conhecida em Portugal), um novo vírus volta a expor as nossas fragilidades, enquanto seres vivos.

Estamos em guerra contra um inimigo poderoso, o coronavírus SARS-COV-2, cuja infeção provoca a doença denominada COVID-19. E em momentos de guerra, a população une-se no combate ao inimigo.

Mas estaremos nós efetivamente unidos? Será que a união passa unicamente por ficarmos em casa? Ou deveríamos estar mais disponíveis para ajudar onde é preciso? A nossa solidariedade é um trunfo eficaz ou é apenas uma solidariedadezinha, de preferência passível de ser divulgada nas redes sociais?

Pouco tempo depois de a doença surgir, na China, percebeu-se que o grupo mais vulnerável eram os idosos. São mais facilmente infetados e as consequências dessa infeção tendem a ser mais graves. Em Portugal, cerca de cem mil idosos vivem em estruturas residenciais para pessoas idosas, vulgarmente conhecidos por lares de idosos.

Parece então óbvio e normal que fossem tomadas medidas especiais para proteger os lares e os seus utentes. E foi isso que aconteceu? Não, não foi. Os funcionários dos lares não foram considerados como desempenhando funções essenciais, todo o material de proteção como máscaras, óculos e outros foram desviados para a saúde. Não foi dado um único sinal para aumentar a capacidade destas estruturas na luta que se avizinhava.

Foi necessário aparecerem casos de infeção em lares, ampla e repetidamente divulgados na comunicação social, para os nossos decisores políticos lhes dedicarem alguma da sua atenção.

O primeiro caso divulgado foi o de um lar em Famalicão, onde três pessoas – a proprietária, a diretora técnica, grávida, e uma enfermeira – cuidavam de trinta utentes, sozinhas, há mais de três dias. Entretanto uma discreta enfermeira, voluntariamente juntou-se à equipa. A única, a exceção. A minha vénia para esse grande ser humano.

Nas horas e dias que se seguiram, perante a exaustão e desespero daquelas três heroínas, que, nunca abandonaram os idosos, assistimos ao seguinte panorama:

O presidente da Câmara dizia que não era competência do município e exigia resposta do governo! Senhor presidente, os idosos querem lá saber de quem é a competência. Os idosos querem e precisam é de ser cuidados, de quem os alimente, de quem lhes dê banho, de quem lhes dê a medicação.

E sim, devia chamar os colaboradores do município para apoiarem nesta causa, ainda que lhe custasse votos. Se a Lei não permite, se o estado de emergência não é suficiente, mude-se o estado de emergência, mude-se a Lei. Vergonha de povo que não cuida os seus idosos, os seus pais. E essa vergonha, que os há-de acompanhar, é, em primeira linha, das gentes daquela terra.

Vimos também duas filhas de uma utente desse lar, com as suas máscaras de proteção, a desdobrarem-se em entrevistas às televisões que, como elas, se encontravam no exterior do lar. Diziam-se solidárias com as cuidadoras que ali continuavam. Mas não suficientemente solidárias para entrar e ajudar. Nem sequer para levarem a sua mãe para casa. “Não temos condições” – diziam elas. Acho que uma delas tem dores nas costas e outra tem um marido que ressona! Sem medo de fazer juízos digo: VERGONHA DE GENTE.

Para terminar, fomos brindados com uma conferência de imprensa em que a indescritível senhora ministra da saúde, com o sorriso permanente de quem tem orgulho no património dentário, afirmava que o problema residia no facto da direção do lar não ter tomado as medidas que ela, senhora ministra, ditou. Num momento de desespero, em que aquelas três pessoas lutavam, com o resto das suas forças, para dar o conforto possível aos trinta idosos, a ministra, preocupada com sacudir a água do seu capote, procurava imputar responsabilidades, encontrar culpados. Estou certo senhora ministra, que mais à frente teremos oportunidade de falar sobre isto e perceber quem falhou, onde e quando.

Desafio os leitores a colocarem-se as seguintes questões:

Como é possível que não tenham sido tomadas medidas atempadas para ajudar as direções dos lares na proteção aos seus idosos, tendo a ação do governo inclusivamente contribuído para os deixar sem meios de proteção?

Como é possível ninguém de Famalicão se ter disponibilizado para acudir aqueles idosos e às três cuidadoras?

Como é possível os filhos afirmarem, sem problemas de consciência ou medo da censura social, que não podiam levar para casa os seus pais, utentes daquele lar, por falta de condições?

Como é possível a senhora ministra da saúde dar prioridade a afastar responsabilidades, em detrimento da busca de soluções?

E por fim, deixo-vos mais uma pergunta – Se estivéssemos a falar de crianças, tudo isto teria ocorrido da mesma forma?

Pois, mas não são crianças. São apenas velhos. Como nós seremos, daqui a uns dias.