Cecília Puga: “Levantaram um muro entre nós e eu senti-o na pele”


Texto e fotos: João Martinho/AVM


Cecília Puga, residente em Arbo e a trabalhar em Melgaço, é um dos mais gritantes casos da dificuldade que o encerramento de fronteiras devido à pandemia Covid-19 causou à economia e ao trabalho transfronteiriço.

Entre Arbo (Galiza) e Melgaço, onde tem um salão de cabeleireiro, viu-se obrigada a percorrer “mais de 190 quilómetros por dia” a partir do dia em que a comunicação viária entre os dois países foi bloqueada por blocos de cimento. Em condições normais, atravessando apenas a ponte internacional do Peso, que liga as localidades vizinhas, percorreria cerca de um quilómetro, o que representa “seis minutos” entre os dois pontos em que diariamente se move.

Além da distância largamente acrescida, desde que pôde retomar a actividade em Melgaço, chegou a ser multada e retida “durante cinco horas” pelos agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) até conseguir provar a actividade empresarial no concelho melgacense [como contou ao jornal La Voz de Galicia, segundo a publicação do site Contacto, que pode ler AQUI].

Desde a reabertura da circulação de trabalhadores e transportes de mercadorias na passagem fronteiriça da ponte internacional entre Melgaço e Arbo, Cecília Puga vê restituído o tempo que passava na estrada para se dedicar novamente à “vida familiar e ao desporto”, mas confessa que “a felicidade só será completa quando abra para todo o público”.

“Quando vives de um negócio, também dependes de que toda a gente possa passar a fronteira, não só os trabalhadores [transfronteiriços]. Esse dia é que será para festejar e voltar a ter uma vida normal entre a Galiza e Portugal. Sempre estivemos juntos. Levantaram um muro entre nós e eu senti-o na pele”, confessou a cabeleireira, um dos testemunhos escolhidos pelo Agrupamento Europeu de Cooperação Transfronteiriço (AECT) Rio Minho para dar voz às dificuldades da população raiana devido ao encerramento de fronteiras, ouvido ontem (15 de Junho) na conferência de imprensa promovida pelo agrupamento.

“Nunca senti que trabalhava no estrangeiro até que esta pandemia veio fechar as fronteiras”, observou Cecília Puga.