“Felizes Para Sempre”: A história de amor de Manuel e Joaquina resistiu ao conservadorismo social

“É dia de São Valentim e todos queremos ler uma “reportagem” cheia de amor. Foi precisamente o que encontramos na Joaquina e no Manuel, ela com 68 anos e ele com 70. Chegamos a casa deste casal, Joaquina está à janela. Repletos de vitalidade, convidam-nos a entrar e colocam-nos à vontade. Em cima da mesa está um álbum de capa marmoreada. Abrimos. No seu interior, fotografias a preto e branco. Começamos a viagem no tempo. Uma história que conta com 51 anos de luta mas também de boas e apaixonantes memórias”.

É com esta promessa de mergulho na história de vida de Joaquina e Manuel que começa o primeiro de dois depoimentos recolhidos por Gabriel Lourenço, no âmbito da iniciativa “Felizes Para Sempre – Histórias de Amor Com Mais de 50 Anos”, para o projecto CLDS-4G Melgaço. O jovem melgacense acompanhou a equipa de trabalho do programa de inclusão social num dos dias da sua intervenção no terreno e recolheu dois testemunhos de amor com mais de meio século… E que ainda perduram.

A iniciativa assinala o dia de São Valentim, mas são também uma prova viva de que há amores que se prometem ‘para a vida toda’. A viagem a esta história de amor, publicada hoje, 14 de Fevereiro, na página Facebook do CLDS – 4G Melgaço, passa pela emigração, pelo conservadorismo dos povos e por outras lutas que marcam a evolução da sociedade na segunda metade do século XX.

“Decorria o ano de 1970. Manuel, natural de Vila Nova de Cerveira e Joaquina, natural de Miranda do Douro, a morar em Paris, conheceram-se num circo por intermédio de amigos. Foi amor à primeira vista, até porque Manuel nunca tinha tido nenhum namoro.

Tal como todas as histórias de amor, nem todo o seu caminho foi fácil. Sendo ela “os olhos dele” e querendo ir embora com o Manuel para França, até porque na altura Manuel ia “a salto”, viu-se obrigada a marcar casamento, porque o seu pai só a deixava sair de casa quando estivesse casada.

Precisava da autorização dele, por ainda ser menor de idade, e foi com a afirmação “Decide lá!”, saída da boca do pai que, “a Joaquina saiu pela casa fora, apanhou um taxi” e foi tratar de todas as questões burocráticas para o grande dia.

Por outro lado, a sua mãe, por “enchimentos de cabeça”, como afirma Joaquina, estava reticente em que subisse ao altar com o Manuel, porque a gente da aldeia de onde ela era natural começou com os “vocês sabem lá se o rapaz já não é casado com outra?” Ou ainda “vocês não conhecem o rapaz!”.

Havia uma inquietação na cabeça dos pais de Joaquina: O porquê de ela não casar ‘cá’ (Portugal). O motivo – nunca revelado – era porque Manuel estava na tropa e não queria que o seu grande amor deixasse esse caminho e fosse considerado um desertor pela comunidade francesa. Já Manuel, estava a quebrar a tradição da terra – estava a ser o primeiro rapaz a casar com alguém de outra localidade, que não a dele.

Passado um ano, no dia 30 de Outubro de 1971, já com casamento marcado, o pai de Joaquina viajou até França juntamente com o pai de Manuel, para fazerem parte da união que perdura até aos dias de hoje. Depois deste pequeno grande caminho para saírem vitoriosos no amor, Joaquina, de sorriso no rosto afirma que Manuel “passou a ser o melhor genro, filho e tudo resto”.

Já Manuel, de brilho nos olhos, olha a esposa e afirma que foi buscar o carinho a Trás-os-Montes que não tinha na família dele. Depois de uma longa mas grande história de amor, Joaquina afirma que “o amor pode ser como a lotaria: pode correr bem ou pode correr mal, mas o que importa é nunca desistir!”.

Dizem eles que a sua história dava “uma biografia”. Em Outubro celebram as Bodas de Ouro e nós queremos fazer parte das memórias desse dia”.

 

A iniciativa do projecto CLDS-4G Melgaço, em colaboração com Gabriel Lourenço, vai contar a segunda história de amor às 18h de hoje (14 de Fevereiro), em publicação na página Facebook. Dê uma espreitadela.


Fotografia e recolha de testemunho: Gabriel Lourenço