COVID-19: Após evacuação dos não infectados, SNS deixa 16 utentes sem apoio médico no Lar Pereira de Sousa


Fotos: SCM/DR

 

Iniciou-se esta manhã (13 de Abril) a transferência dos cerca de trinta idosos não infectados pelo coronavírus COVID-19, residentes no Lar Pereira de Sousa (da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço) para a Unidade Distrital de Acolhimento instalada na Pousada do Inatel de Vila Nova de Cerveira.

A operação está a ser realizada com os meios e apoio da Santa Casa da Misericórdia, dos Bombeiros Voluntários de Melgaço e da Câmara Municipal de Melgaço, que disponibilizou um autocarro para o transporte dos utentes.

 

16 utentes em ala fechada e “à sua sorte”

Relativamente aos dezasseis utentes infectados, o provedor da Misericórdia de Melgaço garante que estão a ser acompanhados e instalados “numa ala completamente fechada” e na qual só entra a equipa cuidadora, devidamente protegida, embora a garantia de meios para tal possa terminar em breve.

Face à situação de falta de equipa médica no apoio aos doentes residentes no Lar Pereira de Sousa – que, como já foi noticiado, se resume a uma enfermeira, após a impossibilidade de a médica do Centro de Saúde continuar a prestar serviço a tempo parcial naquela instituição – o provedor da Misericórdia melgacense voltou a apontar o dedo aos responsáveis pela saúde pública em comunicado de 12 de Abril, pela insistente “proibição”, alegadamente coerciva, aos médicos que entretanto se disponibilizaram para prestar apoio voluntário.

 

“Alguns médicos movimentaram-se nos seus grupos das redes sociais, apelando a quem pudesse ajudar os lares em dificuldades, como é o caso de Melgaço. Na sequência dessa mobilização já existiam soluções, com profissionais disponíveis para nos apoiar. Por volta das catorze horas de hoje (12 de Abril), esse grupo de médicos recebeu uma mensagem ameaçadora dos seus superiores hierárquicos, deixando subjacente que seus trabalhos na saúde estariam em causa se aceitassem colaborar com lares onde há infetados”, refere o provedor da Misericórdia de Melgaço, Jorge Ribeiro, considerando que este “comportamento criminoso por parte dos responsáveis da saúde” abandona os doentes “à sua sorte, usando de mecanismos inaceitáveis para nos retirar os nossos profissionais da saúde”.

 

Enquanto os 16 utentes infectados não forem encaminhados para unidades hospitalares, como defende o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, em consonância com o comunicado também já divulgado da União das Misericórdias Portuguesas, a assistência no Lar Pereira de Sousa continuará a ser feita pelas funcionárias da instituição, que “continuam a dar o corpo às balas, excepto as doentes ou sintomáticas”.

“As nossas colaboradoras não são profissionais se saúde, não estão preparadas para isto. O que pedimos é que muito rapidamente sejam criadas condições a nível distrital para um hospital de retaguarda destinada a positivos estáveis, como são nos nossos dezasseis utentes”, indica Jorge Ribeiro.

 

Sobre o cenário confirmado de casos, o provedor revela que, dos dezasseis infectados, confirmados após testes realizados no início de Abril, quase todos “estão estáveis”, com um ou outro caso a inspirar mais cuidados.

Continua assim a haver casos de idosos “completamente assintomáticos”, eventualmente imunes.

“Como é possível atingir estes níveis de infecção de um dia para o outro, se tomamos todas as medidas estabelecidas pelos planos de contingência?”, lança o provedor Jorge Ribeiro, recordando que, no inicio de Abril, no dia anterior à realização de testes, havia apenas três casos sintomáticos referenciados pelo Delegado de Saúde.

O responsável garante que as medidas de contingência, inclusive a proibição de visitas aos utentes, estão em vigor desde 9 de Março, sugerindo que alguns casos de infecção terão sido já desde antes deste período e em idosos sem quaisquer sintomas até hoje.

 

“O SNS tem de levar estes utentes para espaços destinados a doentes e tratar deles lá”

Ainda relativamente ao apoio médico, Jorge Ribeiro reitera que, “mesmo com um médico a prestar apoio, os Lares residenciais “não são unidades de saúde” e o SNS não pode por isso “empurrar” os doentes infectados para locais sem capacidades de resposta. Agravada a partir de hoje (13 de Abril) em que, após evacuação dos utentes não infectados, a instituição fica com 16 positivos e sem o apoio de qualquer médico.

“Eu não pedi apoio para poder ter um médico. Não queria era que proibissem os médicos de entrar no Lar. Não é por ter um médico que passo a ter condições para ter lá os utentes, mas estou pior sem nenhum”, esclarece o provedor.

“O que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem de fazer é levar estes utentes para espaços destinados a doentes e tratar deles lá. Aqui não temos quartos individuais, nem espaços físicos adequados, nem material adequado”, esclarece ainda.

“Para já temos os funcionários protegidos, mas não para muito mais tempo. Temos máscaras compradas há mais de três semanas, gastamos cinco ou seis mil euros em máscaras, mas não chegarão se isto continuar”, alerta.

1 reply

Trackbacks & Pingbacks

  1. […] voluntariaram para a prestação do serviço, como indicado pelo provedor Jorge Ribeiro no texto “COVID-19: Após evacuação dos não infectados, SNS deixa 16 utentes sem apoio médico no Lar Perei…”], a Câmara Municipal de Melgaço lançou concurso para contratação de equipa médica para […]

Comments are closed.