Vinho e Território #01: Somos e seremos sempre a Origem

 

 

Um desafio é sempre um desafio e este de partilhar reflexões sobre o Alvarinho, as vinhas e o vinho, sobre o nosso Território é algo que me dá especial prazer.

Nasci em Melgaço e aqui vivi até aos 17 anos. No meu tempo ainda tinha de se sair daqui para “tirar” o 12.º ano. Eu fui para Viana com um amigo, outros para Braga ou para o Porto.

A experiência e o conhecimento não se obtêm por decreto, é preciso procurá-los. Estudei Enologia em Vila Real, passei por outras adegas em Portugal e na Borgonha e depois de muitas experiências como a de estar ligado à certificação do Vinho Verde durante quase 25 anos e de ver crescer o Soalheiro, continuo a querer desafiar-me e arriscar, por isso estou aqui a escrever-vos.

Nesta primeira reflexão quero abordar precisamente o tema do conhecimento e porque é que o conhecimento é tão importante para a sustentabilidade do nosso Território. Assistimos com agrado a que jovens (como eu já fui), que daqui saíram para enriquecer os seus horizontes, voltem agora aos poucos a fixar-se em Melgaço. Este fenómeno de retorno é fundamental para que novas ideias e novos projetos possam crescer com uma paixão singular, aquela que sentimos pelo local que nos viu nascer. Essa energia é inimitável e está na base daquilo que somos, mas novos desafios se colocam, e para os abraçarmos temos de abrir as portas à inovação e à digitalização, a novos conhecimentos, a todos aqueles que vêm por bem.

A partilha do que é nosso com quem ainda não o conhece, de forma despreocupada e descomplexada, ajuda a que consigamos ter uma visão diferente de coisas que já conhecemos como ninguém – é como se nos colocássemos distantes a observar uma paisagem que, embora pareça um quadro, está sempre a mexer e na qual somos, todos nós, actores principais.

Isto para dizer que valorizo muito a abertura para o conhecimento e parece-me que no nosso Território esta máxima faz mais sentido do que nunca. Abrir portas, como o Alvarinho abriu para o mundo, permite sempre caminhar em dois sentidos: não apenas no sentido de partilhar o que conhecemos, mas também no de explorar e aprender com o que ainda não conhecíamos.

Sem dúvida que esta casta maravilhosa tem aqui origem e é um património nosso, mesmo muito nosso, que por isso temos que saber valorizar, valorizando o Território, quem o construiu e todos os que nele trabalham, aprendem e inovam. Somos e seremos sempre a Origem, por isso, outros locais, outros mundos, têm e terão sempre este ponto de referência. Para honrarmos este legado, temos que o continuar a afirmar todos os dias com o nosso trabalho, com inovação e sem medos que o conhecimento possa fluir porque, quando isso acontece, o nosso aumenta sempre! 

Inovar é, sem dúvida, valorizar, e valorizar é crescer, é crescer bem, é ser sustentável. A sustentabilidade – económica, ambiental, social e cultural – sempre foi o pilar de um desenvolvimento harmonioso e coerente que permite a diferenciação do Território.

Por cá, a inovação começou quando plantámos Alvarinho no centro do campo em vez do milho, do feijão ou do feno. A inovação começou quando arriscámos todos investir numa uva que começou pouco a pouco a ser reconhecida em Portugal e depois em todo o mundo. Mas este é um caminho que não acaba, a inovação não pode parar porque o que é novo hoje, amanhã é tradição e para que esta se mantenha, há que continuar a inovar.

Falamos agora muito mais de Monção e Melgaço como uma localização pois dizem que foi um erro falar apenas de Alvarinho. Não creio que o tenha sido e não creio que o Alvarinho deixe algum dia de ser uma marca forte. Monção e Melgaço é o que é nos vinhos por causa do Alvarinho. Penso que a nossa comunicação tem trilhado um caminho diferenciador: promovemos uma Origem Geográfica tal como o Velho Mundo sempre fez com as Denominações de Origem e IG’s, vejam o exemplo da força da nossa Denominação de Origem Vinho Verde, do nosso Douro, do nosso Vinho do Porto ou dos franceses Bordéus, Champanhe ou Borgonha, mas com a diferença de fazer como fez o Novo Mundo, da Austrália à Nova Zelândia, que promoveu as castas. 

A inovação não diz respeito apenas ao processo ou ao produto, a inovação também se faz na comunicação, e a nossa região, que tem tudo para caminhar para uma futura e inovadora Denominação de Origem dentro dos Vinhos Verdes, fez e continua a fazer diferente ao comunicar a origem, Monção e Melgaço, e a casta, o Alvarinho. 

Mas, como referi anteriormente, o caminho da inovação não tem um fim, por isso temos de continuar a engrandecer o nosso legado com a atitude exploradora que sempre tivemos, continuar a descobrir novos mundos, outras castas que valorizem o nosso Território, por exemplo nos vinhos tintos, saber mais sobre o Alvarinho, sobre os nossos micro-terroirs, sobre as nossas vinhas, sobre outras formas de comunicar.

Na próxima reflexão, casos concretos e caminhos futuros.

Até breve e tudo de bom! 

António Luís Cerdeira