Abi Feijó veio a Melgaço dar ‘A Maior Lição do Mundo’ sobre igualdade de género e cinema de animação


João Martinho


“[As crianças] passam horas por dia a consumir audiovisual sem nunca reflectir sobre isso”

 

Abi Feijó, realizador de cinema de animação, produtor e director da Casa museu de Vilar (Lousada), esteve em Melgaço de 2 a 5 de Agosto para A Maior Lição do Mundo, uma oficina integrada no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Cinema de Melgaço, para mostrar aos mais novos que é possível aprender sobre animação e os direitos humanos.

A igualdade de género, um dos temas possíveis para desenvolvimento no contexto do projecto da UNICEF, foi a escolha dos alunos, entre os 10 e os 16 anos, que durante os dias da oficina aprenderam a trabalhar o guião, o storyboard, gravar vozes, música e processo de montagem de uma curta-metragem de animação.

Com recurso à plasticina, criaram personagens de jogadores e jogadoras de futebol que entram em conflito após o jogo, quando o pagamento aos atletas masculinos foi superior ao das atletas com quem disputaram a partida.

Deste exercício resultou uma curta-metragem com pouco mais de um minuto de duração, o que “surpreendeu” os alunos, a braços com a sua primeira incursão no mundo dos filmes de animação.

“Houve situações em que ficaram surpreendidos. Três dias para fazer um minuto de animação, e de trabalho desde as 9h30 até às seis da tarde, foi um horário puxado. Se calhar em período de aulas não tem um dia tão intenso, mas acho que o resultado está muito divertido”, considerava Abi Feijó, formador e a quem coube ajustar os pormenores técnicos a tempo da exibição que decorreu no auditório da Casa da Cultura, no último dia do MDOC.

“Foram eles que escolheram a técnica. Quiseram trabalhar a plasticina, mas tenho trabalhado com muitas e diversas técnicas, nas várias oficinas, com o desenho, marionetas, colagens… Acho muito interessante aceitar desafios para trabalhar com técnicas diferentes. Muitas vezes pergunto se há localmente há algum artesanato com que se possa trabalhar na animação. Há dois anos num projecto, usamos os bordados, que eram uma tradição local. À partida não é uma técnica evidente, mas foi interessante, com um resultado muito bonito e pelo envolvimento de toda a escola e da comunidade, porque as crianças levaram os bordados para casa, para as mães, as avós ou as tias darem ali um jeitinho”, conta ainda o multipremiado realizador e produtor de cinema de animação.

Poderia este tipo de cinema fazer parte do plano escolar de forma mais efectiva, através de uma disciplina com orientação para o audiovisual? Abi Feijó reconhece as vantagens e diz que se está a fazer algum caminho nesse sentido.

“Isto pode ajudar a escola a passar as matérias, o trabalho em equipa, a perseverança. A animação precisa de muita paciência, tudo isso são valores que estão intrínsecos num trabalho destes. Se pensarmos que temos de fazer doze desenhos por cada segundo de filme, já se tem ideia do trabalho que isto pode ter. E isto não é só uma brincadeira. Entendo que os miúdos devem ter uma aprendizagem da linguagem cinematográfica, que é uma linguagem que não aprendemos na escola. Aprendemos a ler, a escrever, a desenhar, a música, mas o audiovisual não se aprende na escola, e é extremamente poderosa, extremamente manipuladora das pessoas. E ninguém fala nela”, observou.

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Texto na íntegra na edição impressa de Setembro do jornal “A Voz de Melgaço”