Desejos a uma ‘Lâmpada’ com pé de barro: Um ano após programa da SIC, Luís Pedro perde direito à sala para Terapia Ocupacional pedida pela irmã

 

Em Setembro de 2020, o jornal “A Voz de Melgaço” deu nota de um momento televisivo especial para Melgaço e a sua comunidade escolar. Na sequência de uma carta enviada por Inês Alves, de 9 anos, ao programa “A Árvore dos Desejos”, emitido pela SIC – onde pedia uma sala equipada e apoio vocacionado para a Terapia Ocupacional que evitasse as deslocações semanais do irmão Luís Pedro, com Síndrome de Asperger, de Melgaço a Viana do Castelo, onde estava a fazer tratamento – a produção do formato apresentado por João Manzarra acedeu às necessidades da missiva.

Para o efeito, foi equipada uma sala no Centro Escolar da Vila de Melgaço, que serviria para as sessões de Luís Pedro, mas também de outras crianças com a mesma condição. Significava assim, além da dotação do espaço com todo o material necessário ao estímulo motor e psicológico do utilizador, mas também de uma terapeuta ocupacional.

A inauguração oficial da sala decorreu no episódio dedicado a esta boa acção da produção do programa emitido pelo canal, com pompa e toda a circunstância, na qual Inês Alves foi convidada a cortar a fita e descerramento da placa que dava nome à sala e ao formato televisivo, a par dos representantes da comunidade escolar e autárquica de Melgaço.

Um ano após a inauguração da sala e o início do período escolar, a mãe de Luís Pedro, Catarina Malheiro, desabafou nas redes sociais acerca do efectivo funcionamento desta solução, sugerindo que aquele equipamento e apoio terapêutico inerente “nunca foi verdadeiramente para ele” e que terá sido um “presente envenenado” apenas para efeitos “de espectáculo, de um programa de televisão”.

 

Transcrevemos abaixo, conforme a publicação na página Facebook de Catarina Malheiro, o essencial do desabafo e protesto relativamente à gestão e critério de selecção dos alunos beneficiários.

“No primeiro ano, com a pandemia, o Luís Pedro, as poucas vezes que a frequentou nunca teve direito a ter a terapia individualizada. Teve que se sujeitar a ter a sessão semanal, com um outro menino, 4 anos mais velho e com uma necessidade terapêutica completamente diferente.

Para quem sabe o que é a terapia ocupacional, com esta especificidade da integração sensorial, sabe que a mesma tem de ser individual (A intervenção ocorre numa abordagem individualizada e num contexto de brincadeira, de maneira a permitir que a criança desenvolva competências de um modo divertido e motivante). Esta é a verdadeira forma de fazer as coisas bem.

Na altura, foi-nos dito que essas sessões individuais foram atribuídas a outros alunos. Continuei a levar o meu filho, semanalmente a Viana, para ter as sessões de terapia que merecia e precisava ter.

Este ano, fui informada que o Luís Pedro NÃO terá direito a ter as sessões de TO [Terapia Ocupacional] na sala dos Desejos, outros meninos, com outras necessidades irão usufruir dela. Mais uma vez, aquele sabor amargo a presente envenenado. Uma pena, meus senhores, uma pena.

Crianças com grande potencial de recuperação, de progressão tem todo o direito a usufruir das medidas de apoio que existem. Aliás, como os especialistas dizem (os médicos, aqueles que realmente sabem do assunto), é nestas crianças que realmente vale a pena investir, para que no futuro sejam jovens e adultos com uma grande integração na sociedade e com problemas mentais minimizados.

Só dois anos depois do diagnóstico do meu filho é que cedi à pressão médica para o medicar, antes sempre LUTEI e DEFENDI, que se a sociedade onde está inserido, a escola, fizesse tudo para lhe proporcionar todas as medidas de apoio para o evitar, a medicação não seria necessária. Que ingénua que eu fui, que ingénua que eu sou, por acreditar (não apenas na Árvore dos Desejos) na integração e na equidade.

O meu filho está medicado desde o dia em que a escola começou”.