De São Tomé a Melgaço e à Branda de Vale de Poldros: “Se fosse para estar a viver na cidade não teria ficado”


João Martinho


Há dez anos que Kelson Lima molda o sonho de ser um filho da terra

 

Kelson Lima Boa Esperança, chegou a Melgaço, vindo de São Tomé, em 2012. Veio fazer o curso profissional de Gestão Desportiva, mas a sua vontade de trabalho estava associada a outras áreas.

Chegou a querer fazer Ciência Política na Rússia e inscreveu-se, mas quando veio a estimativa de despesas e não queria esforçar ainda mais as despesas da mãe, procurou uma solução mais em conta e que fosse razoável e estimulante para todos os envolvidos na decisão.

Proveniente de uma família de comerciantes em São Tomé, a mãe de Kelson ambicionava para o filho um futuro para lá da cozinha ou do atendimento aos turistas que eventualmente lhe chegarão ao estabelecimento. Preferia que o filho fizesse Ciência Política ou Gestão Desportiva.

Com bolsa de estudo, veio para Melgaço fazer Gestão Desportiva, e foi aqui que o destino lhe foi moldando o destino para que realmente o turismo e a relação com quem visita o território lhe viesse cair às mãos. Já em Melgaço, conheceu um colega de quarto que trabalhava no Restaurante de Val-de-Poldros, na branda com o mesmo nome, em Riba de Mouro, Monção.

Pouco depois, em Março do mesmo ano, começaria a trabalhar no restaurante de montanha do qual Fernando Gonçalves é um dos sócios gerentes. É desde então – e completam-se em 2022 dez anos desde a sua chegada a Melgaço e também de trabalho na restauração – um trabalhador frequente do sector do turismo desta região.

“Vim para aqui, não conhecia ninguém, e agradeço à vila que me acolheu como se fosse a minha casa. Quando vimos, como estudante ou emigrante, não podemos vir a pensar na dificuldade, mas nos objectivos. Criei-me sem pai, com oito anos tive que ajudar a minha mãe com as despesas, comecei a trabalhar. Inclusive pela sociedade”, conta-nos Kelson Lima.

Em São Tomé, chegou a candidatar-se a presidente da Câmara, foi Escuteiro, jovem sem Fronteiras e voluntário em prol da sociedade. Já voltou duas vezes à sua terra natal. “Todas as vezes que chego lá abraçam-me, tem-me como pessoa de sucesso”.

Longe dos familiares, está a criar a sua própria história de vida e família. Quer ficar em Portugal pela “qualidade de vida e salário”. Quer fazer uma casa e ficar.

“Venho de uma zona turística, que tem montanha e mar, pesca e agricultura. E aqui também me liga às duas coisas, estamos aqui, vou à Galiza temos a pesca e as pessoas são simpáticas e acolhedoras. Temos paz e sossego. Se fosse para estar a viver na cidade não teria ficado. O valor da emigração não é sobreviver, é aproveitar a vida. Se fosse só para sobreviver tinha ficado na minha terra. Teria sobrevivido”.

Prestes a mudar-se para a vila de Monção, terá de fazer 33 quilómetros por dia até ao alto da Branda de Vale de Poldros, paredes-meias com a da Aveleira, Melgaço.

“Nunca vou abandonar esta casa, é um bocado de mim. A natureza, a paisagem, o perfil de clientes que vem. Estou à vontade com eles. Aqui não é zona de passagem, aqui é para parar, almoçar e ficar por cá um bocado”.

Onde fica a gestão desportiva, no meio deste currículo? “Não fui mau aluno, mas não gostava. Terminei com média de 17. Mas a minha primeira escolha é economia. Talvez faça esse curso, quando tiver a minha filha já na escola, também”, atira.


Texto publicado na edição impressa de Dezembro 2021 do jornal “A Voz de Melgaço”