Plano de Investimentos Galiza-Norte de Portugal 2021-2027: Norte ganha quase metade do que a Galiza à hora e isso “não favorece a criação de um verdadeiro mercado laboral transfronteiriço”


João Martinho


O Plano de Investimentos Conjuntos da Eurorregião Galiza-Norte de Portugal 2021-2027, discutido no seio da Comunidade de Trabalho Galicia–Norte de Portugal e do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial da Eurorregião, apresentado em finais de 2020, conclui que a diferença salarial entre Portugal e Espanha poderá dificultar a fluidez do mercado laboral transfronteiriço.

“O desequilíbrio existente nas retribuições salariais de um e do outro lado da raia não favorece a criação de um verdadeiro mercado laboral transfronteiriço. Além disso, a grande diferença em relação à média da União Europeia, especialmente relevante na Região Norte, onde a hora de trabalho tem a metade da retribuição e situa-se entre as regiões com piores salários do continente, constitui uma séria ameaça tanto à retenção como ao retorno do talento jovem na Eurorregião”, conclui o Plano que procura desenhar a estratégia para a próxima década.

 

Segundo os valores da Eurostat, em 2017 o ganho médio por hora no Norte do país era de 8,5 euros, um euro abaixo da média nacional e quase metade da média na Galiza, onde se situa em valores de 13,9 euros/hora.

Contudo, também a Galiza está ligeiramente abaixo dos valores médios do resto do país, que paga 15,9 euros por hora normal de trabalho. A média de Espanha está por isso mais próxima da média europeia, na ordem dos 18,4 euros/hora, ainda segundo o gabinete de estatísticas da UE.

O presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Manoel Batista, acredita que a região está a acertar o passo pela corrida europeia quanto à competitividade e valorização salarial, tendo apenas que arrumar ligeiramente a casa nos próximos tempos.

“Estamos numa situação diferente quando falamos em salários médios de um lado e do outro. O que tem acontecido, mesmo assim, é que a instalação de empresas do lado português está com uma aceleração maior do que do lado galego. É desejável que tenhamos mais empresas deste lado do território, empresas de qualidade, com um ID (Índice de Desenvolvimento) mais elevado e possam começar a pagar salários acima do salário mínimo, que se aproximem dos salários médios”, notou o edil, puxando ao seu território uma franca ambição em valorizar a fileira produtiva.

“Espero que isso se faça nos próximos anos também em Melgaço, com o esforço que se está a fazer do ponto de vista industrial, e sejamos capazes de atrair empresas de valor acrescentado para que essa questão salarial não seja um problema, mas um motivo de atraçcão e captação de pessoas”, sublinhou.

Ainda no que respeita ao sector público, Manoel Batista diz que “urge” uma revisão nas carreiras para que a experiência e anos de trabalho sejam devidamente reconhecidos.

“O que nos está a acontecer é que, com a subida do salário mínimo, qualquer pessoa que entre neste momento para a carreira de Assistente Operacional, que tem por base o salário mínimo, se aproxima rapidamente [da média salarial] de pessoas que estão na mesma carreira há muitos anos, cuja progressão os levou para patamares muito próximos deste, ou em alguns casos abaixo”, notou o edil, apontando esta  urgência em posicionar os trabalhadores “no sítio adequado e justo” em termos de remuneração.


texto publicado na edição impressa de Janeiro 2022 do jornal “A Voz de Melgaço”


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