Fernando Gonçalves e uma irredutível paixão pela branda… sem passadiços


João Martinho


 

“Aqui, as pedras têm importância e os caminhos foram feitos por gente que tem história. Não precisamos de muito mais”

 

Fernando Gonçalves, natural de Riba de Mouro (Monção), é hoje figura inegável do cartão de visita da Branda de Vale de Poldros, onde assume a gestão do restaurante com o mesmo nome (tira-se apenas o ‘e’ mudo de Vale), desde 2003.

Começou a ficar “famoso” a partir de um dia em que uma reportagem de viagens, emitida pela TVI, visitou a branda e o seu estabelecimento, mas o apreço por quem lhe fez vingar o negócio destina-se à vizinhança concelhia.

“Tenho que agradecer às gentes de Melgaço, que me ajudaram muito. Se chegaram pessoas a esta serra, foi de Melgaço. Antes, não havia aqui ninguém, só os que se perdiam e alguns amigos”, diz Fernando Gonçalves.

Antes do mediatismo televisivo e das inúmeras reportagens escritas que tornaram conhecida aquela branda, vizinha da de Aveleira (Melgaço), o agora empresário, cozinheiro e entusiasta do turismo de montanha reconhece ao concelho melgacense um avanço na estratégia turística com efectivo resultado.

Critica as “modas” que considera desajustarem-se da oferta que a componente natural daquela montanha proporciona e das intervenções que a gestão política local faz “para enfeitar”.

“Há muitas coisas agora na moda, como os passadiços, quando aqui temos os caminhos e carreiros… Isso é que é bonito. Não precisamos de modernices. Aqui as pedras têm importância e os caminhos foram feitos por gente que tem história. Não precisamos de muito mais. O presidente da Junta [de Riba de Mouro] fez algo por isto, colocou algumas placas informativas para se chegar a Santo António. O resto que se tem feito é para enfeitar”, atira.

Não poupa as entidades responsáveis por algumas dinâmicas que, no seu entender, são desenhadas sem visitar a branda, entre elas “uma casa para as bicicletas que não faz sentido na branda”.

“Nem está [bem] localizada, nem a pedra é daqui. Seria bom respeitar a arquitectura da Branda”, sublinha, lançando o desafio às entidades do sector turístico para que visitem a serra na companhia de um turista, “para avaliar as dificuldades” de quem visita a serra pela primeira vez e encontra “caminhos tapados”.

Inconformado fora de portas, tranquilo com a oferta dentro delas. Nas duas salas do seu restaurante assegura que a sua busca é sempre por produtos locais. Desde as carnes, originárias de Monção, Melgaço ou Arcos de Valdevez – como é o caso da carne Cachena certificada – até à sopa que, em ocasiões especiais e a pedido, pode ser de saramagos.

Para fazer por merecer as atenções do turismo de hoje, aposta na qualidade que diz ter tido sempre, mesmo no tempo em que era preciso “paciência ou deixar-se estar”.

“Muitas vezes aguentei, por causa dos clientes que tinha. Hoje já acredito que possam vir mais. As pessoas não vem à serra só para comer alguma coisa. Para isso, traziam com eles e comiam na serra. Se vem aqui ao restaurante é porque querem algo diferente”, considerou.

Acredita que, a par do vinho, que “melhorou muito” nos últimos anos, também os produtos de criação local, como o cabrito e o cordeiro, terão mais qualidade e preço que cative quem sobe à serra para descobrir paisagem e sabores.

“É uma forma de conservar as aldeias, os terrenos agrícolas, os animais. Um dia que percamos todas estas pequenas coisas que compõe esta natureza e este equilíbrio, não teremos nada”, conclui.

 

Fernando Gonçalves, junto ao “Val de Poldros”