Lampreia do Rio Minho: Motivos de festa e um de alerta para a mais pitoresca e milenar iguaria do Vale do Minho


João Martinho


Melgaço deu o mote para o grande evento gastronómico de Inverno dos seis concelhos do Vale do Minho, e chama à prova uma centena de restaurantes. Melgaço, Monção, Valença, Paredes de Coura, Vila Nova de Cerveira e Caminha apresentam-se neste regresso à normalidade das iniciativas e levantam novamente a ‘bandeira verde’ à visitação com uma proposta que, não sendo consensual, atrai aos concelhos do Vale do Minho verdadeiros entusiastas dos sabores da lampreia.

A ADRIMINHO, a Confraria da Lampreia do Rio Minho, e os municípios promoveram as suas especificidades na abertura oficial do período de pesca e degustação do ciclóstomo em evento que decorreu na Fonte Principal das Termas de Melgaço, no dia 16 de Fevereiro, promovendo as iguarias de cada um dos concelhos em seis mesas com sugestões onde também a lampreia, a exemplo do bacalhau, vai somando receitas.

Manoel Batista, presidente da ADRIMINHO e da autarquia anfitriã do lançamento da 13ª edição da “Lampreia do Rio Minho – Um Prato de Excelência”, recordou o trabalho em curso que levará as pesqueiras do Rio Minho a serem declaradas “património de interesse cultural a nível nacional”.

O trabalho, conduzido por Álvaro Campelo e pelo Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial (AECT) Rio Minho, quer que este edificado, assim como a tradição da pesca de teor artesanal ainda hoje em prática seja parte da “cultura imaterial” ligada ao rio, no troço de Melgaço a Monção.

Tendo por base a lampreia, fresca ou fumada, as sugestões de apresentação tem ganho mais variedade nos últimos anos, face ao paladar forte e alguns modos de preparação que tem deixado a população mais jovem reticente na apreciação. Contudo, foi a receita tradicional e em moldes de prato caseiro que cativou os presentes no evento de lançamento da época de lampreia de 2022. A confecção tem por base a lampreia e… Massa Cotovelos. Uma receita quase exclusiva dos pescadores, com rusticidade, que agora ganha dimensões de nova proposta para a restauração aderente.

A falta das chuvas de Inverno poderá não contribuir para que este seja um ano “farto” em lampreias. A restauração já adivinha algum decréscimo, ou pelo menos demora, no cenário se “sucesso” que Manoel Batista deseja para os pescadores que mergulham as redes nas pesqueiras milenares do Rio Minho.

“Sucesso não significa grandes resultados financeiros, mas chegar a uma pesqueira e ter a alegria de encontrar a rede cheia”, notava o edil, sobre um “sucesso” para o qual a meteorologia está a demorar em contribuir.

 

Crónica de um fim anunciado: “Espécies migradoras deixam de ter condições para permanecerem neste rio nos próximos 30 a 50 anos”

 

Carlos Antunes, biólogo e director do Aquamuseu do Rio Minho, reforça no entanto a necessidade de fazer algo para que este recurso tão valorizado no Vale do Minho deixe de subir o rio nos próximos “30, 50 anos”.

O biólogo recorda que este “serviço que o ecossistema nos presta, quer em termos de alimento, quer em termos de cultura” pode ser o primeiro a acusar o ‘golpe’ das alterações climáticas.

“As projecções não são muito animadoras, porque as ondas de calor, os períodos de seca prolongados provavelmente vão acontecer mais vezes e estas espécies migradoras deixam de ter condições para permanecerem neste rio nos próximos 30, 50 anos”, ressalva, notando que é essencial pensar “a esta distância” e para lá dos eventos, “que alternativas temos para mitigar estas mudanças”.

Carlos Antunes nota ainda para o impacto que a mão humana teve neste ciclo da lampreia, como é o caso das barragens e das espécies exóticas que tem povoado o Rio Minho, além do factor da poluição, que “não está completamente resolvido”.

 

“A lampreia, tal como o Alvarinho, sabe melhor na montanha”

 

A mais de 1100 metros de altitude, na Branda da Aveleira (Gave, Melgaço), o restaurante “O Brandeiro” tem como envolvência a paisagem que é solar da raça Cachena e onde esta valência da serra pode ser apreciada à mesa. Ainda assim, tal como o bacalhau (com broa, que se tornou uma imagem de marca da restauração de Melgaço) também a lampreia se tornou uma referência na restauração local, do rio à montanha.

Agostinho Alves, proprietário do restaurante que divide o terreiro com a capela da Senhora da Guia, naquela branda, diz que “a prova na serra é quase como o Alvarinho, quando sobe a serra altera-se, melhora, e a lampreia também”.

“Desde que abrimos o restaurante, em 2015, tenho sido aderente todos os anos. É interessante porque, sendo um restaurante mais de carne, da montanha, casa muito bem a lampreia na altitude, acompanhada pelos vinhos Alvarinhos”, nota.

As receitas tradicionais, com arroz ou à bordalesa, são apostas seguras para o prato principal. Para os que não dispensam uma degustação mais ligeira, há ainda a opção de prova enquanto lampreia verde grelhada que, como entrada, tem feito sucesso.

 

Lampreia de Melgaço… Uma ‘pérola’ difícil de encontrar na restauração

O proprietário d’”O Brandeiro” e presidente da Junta de Freguesia de Gave, à qual a emblemática branda pertence, admite esforços para que a lampreia que leva à mesa “seja dos pescadores de Melgaço”, ainda que seja um teste à paciência dos eventuais interessados, já que o ciclóstomo chega às aguas de Melgaço mais tarde.

“Chega mais tarde mas é mais saborosa, mais rijinha. Não quer dizer que a outra seja má, mas é diferente, tem outra textura. Um melgacense que esteja habituado à lampreia daqui, da zona mais alta, nota a diferença perfeitamente. Se pusermos uma e outra, quem nos visita notará que o paladar é diferente”, reforça.

O ano de seca não está a ajudar a abundância neste inicio de época de pesca de lampreia no rio minho e talvez empurre a melhor época da lampreia nas pesqueiras e na restauração melgacense para Abril, Maio, mas as expectativas não são as melhores.

“Pelo caudal baixo do Rio Minho nesta altura, não vai ser um ano muito farto de lampreia”, diz Agostinho Alves.

 

“Antigamente o rio demorava quinze dias a baixar 4 a 5 centímetros, agora baixa 4 a 5 metros de cada vez”

 

Juvenal Esteves e José Rodrigues, pescadores, naturais de Chaviães, conhecem o ritual que envolve a captura da lampreia em pesqueira há mais de meia década. A necessidade de emigrar e as alterações que a construção de barragens vieram impor ao caudal do rio foram desencantando estes dois melgacenses que, ainda assim, voltaram à prática mais frequente em meados dos anos 80 do século vinte. Mas já não era a mesma coisa.

Se a emigração tinha levado muitos dos arrojados melgacenses para a missão de reconstruir a Europa fora de portas e para ganhar fôlego financeiro para consolidar a própria vida; o património milenar das pesqueiras perdia interesse pela incerteza das águas, o pouco rendimento que davam,  o que redundou em alguma clandestinidade a que foram votadas.

“O meu pai dizia que, antigamente, o rio demorava quinze dias a baixar 4 a 5 centímetros, hoje em dia baixa 4 a 5 metros de cada vez”, lamenta José Rodrigues, embora as cheias do início dos anos 2000 tenham trazido mais lampreias para a desova nas águas do Rio Minho.

Continua ainda assim a ser uma iguaria rara na restauração melgacense. A quem queira provar o ciclóstomo que lutou contra todos os elementos e alguns predadores para chegar ao troço de Melgaço do Rio Minho, o melhor será averiguar quais os restaurantes que são proprietários de pesqueiras ou perguntar à restauração aderente qual o melhor calendário para a prova, mantendo o maior respeito pela sazonalidade do ciclóstomo.