A Voz de Melgaço – Especial Aniversário (1 de 3) Destaques de 1946-1973


João Martinho


Há 76 anos que o jornal “A Voz de Melgaço”, primeiro quinzenalmente e agora mensalmente, traz a mensagem de muito do que passa no concelho mais a Norte. Aqui Começa Portugal, diz-se hoje, porque a história e a visão estratégica e dinamizadora de Mário Monteiro, de Cevide, descobriu o marco de fronteira ainda hoje válido para a definição de território face à vizinha Espanha.

Talvez a dinâmica empresarial, turística, ligada ao vinho e à agropecuária como perspectiva o autarca de Melgaço, venha acrescentar mais indivíduos aos 7.773 contados pelos Censos em 2021.

O jornal “A Voz de Melgaço” pelo seu carácter mensal, não procura noticiar o imediato, mas figuras e acontecimentos que desafiam diariamente o despovoamento do interior, a dinâmica de entidades ou figuras do poder local que procuram concretizar investimento e gerar dinâmica empresarial. Mas demora a tornar estes números expressivos, e até que os exemplos concretizem aquilo a que se propõe, os renitentes e os impulsivos pegam no carro e em duas ou três malas e partir para locais onde se toma melhor o pulso às iniciativas e se vê algo a acontecer.

Talvez seja uma questão de ânimo e a nossa resignação se tenha transformado em marasmo, à espera de um abanão.

Revisitar as primeiras edições do jornal “A Voz de Melgaço” foi um desafio, à pesquisa e à luta de um povo que, tendo tão menos do que hoje qualquer indivíduo possa ter, possa figurar tão dinâmica, lutadora e concretizadora de obra. Mas também a revisitação à História de Melgaço, sempre pertinente.

No primeiro ano de publicação do jornal, dois assuntos que poderiam perfeitamente ainda hoje ser motivo de capa: Uma entrevista a Mestre Morais, o Director Artístico da Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço (imagine-se, uma Banda. Hoje com tantas escolas de música a querer operar no concelho…) e em Dezembro desse ano um jogo de futebol entre o Sporting Clube de Melgaço e o Desportivo Courense, do qual “os Leões” de Melgaço saíram vencedores.

Só quase sete décadas depois, Melgaço volta a ter dinâmica desportiva que lhe faça valer o epíteto de “capital” em alguns desportos. Hoje veste-se a camisola de Melgaço em várias modalidades desportivas, mas quem for “lá atrás” sabe que tudo naquele tempo soaria como o desafio de uma vida.

Em 1947 falava-se da necessidade de recenseamento da população e, entre outras, de uma viagem de São Gregório a Lisboa. A foto que ilustra a peça é do Monte do Facho, um verdadeiro documento do quanto humilde (mas místico) seria já aquele espaço, já devoção a Senhora de Fátima.

Em 1948 Falava-se das extintas Freguesias de Melgaço (parece que a reforma administrativa não é só de hoje), como era o caso de Santa Comba (Penso) S. Vicente (que englobava dois coutos, o do centro paroquial e o do lugar de Vilar, este último, deveria ser um lugar situado entre Paderne e Alvaredo. Assim como a de São Facundo e Santa Maria do Campo (a igreja seria a que é ainda hoje, a Igreja da Misericórdia).

Em 1949, a população de Castro Laboreiro protestava contra a forma como os Serviços Florestais operacionalizavam a florestação dos montes, ameaçando as pastagens que alimentavam o gado dos locais.   

Por essa altura (em 1950) o fotógrafo melgacense San Payo, já a dar provas do seu talento em Lisboa, falava ao Diário de Lisboa a propósito de uma exposição de retratos no Palácio Foz, da sua falta de paciência para se “enfarpelar com trajes de cerimónia, calçar sapatos de verniz e verificar constantemente se a gravata ocupa o lugar respectivo. Tudo é deveras incómodo para quem não tem tempo nem pachorra para cuidar de semelhantes ninharias de indumentárias”. Quando questionado sobre o seu género de fotografia preferido, dizia ainda o artista que as fotos de paisagem são um “lugar comum”, e só gostava daquela paisagem onde ainda não interveio a mão do homem. Ainda Melgaço não tinha descoberto o urbanismo na maior parte do seu território, já San Payo ambicionava o turismo de natureza que hoje se promove.

Em Junho de 1951 recordava-se Santa Rita e a obra que ali ganhava forma como “Um grande centro de piedade”, com peregrinos vindos um pouco de toda a região e o lançamento da primeira pedra da nova igreja. Um sonho que se foi tornando realidade… E que deveria ter ganho raízes na comunidade local. Contudo, hoje a região está cheia de paredes vazias, apesar da necessidade de muitos.

Em 1952, os guias Jorge Santos e Manuel Mendonça Junior explicavam como realizaram a “primeira escalada técnica da Penha do Anamão”. Um desporto que hoje não é representativo no concelho, mas que a história nos diz que fazia sentido.

Em 1955 inaugurava-se o edifício dos CTT em Melgaço, entretanto periclitante em termos de serviço publico/privado/publico…

Voltando ao grande projecto do fundador deste jornal, em 1960 anunciava-se a vinda do Coro dos Monges de Singeverga a Santa Rita. Que dimensão ganhava, o sonhado santuário…

Dos destaques, visíveis nas imagens que ilustram este texto, chamamos a atenção para a edição de Julho de 1973, quando o Governo deliberou o território de Monção-Melgaço como região demarcada para o vinho Alvarinho, e da necessidade de se planear a plantação para melhor rentabilidade. Outro sonho que, em 49 anos, esboroou-se no seu projecto inicial. Ou que as lutas são cíclicas. Em 50 anos, a pretensão do território volta a ser a Denominação de Origem.

Nos números de Julho e Agosto daremos nota desta análise aos 75 mais este que agora se celebra. Contudo, é o registo que hoje tem valor histórico e que foi construído com participação do povo, escrevendo, denunciando, ou aproximando-se de quem o faça, para que hoje seja um testemunho da vida de mais de meio século da comunidade melgacense.