Dia do Brandeiro, Aveleira: Da transumância às novas itinerâncias do desenvolvimento


por Andreia Amorim Pereira
Geógrafa


BRANDA DA AVELEIRA: MEMÓRIA E IDENTIDADE ENQUANTO ATIVOS DE DESENVOLVIMENTO

Porque nos agregamos em torno da celebração da memória? Porque persistem as gentes da Branda da Aveleira em comemorar o Dia do Brandeiro? Porque peregrina o nosso espírito na procura de vivências, artefactos, construções ou manifestações de cultura que transportem as frágeis reminiscências do passado? Porque razão sentimos um íntimo deleite em percorrer os caminhos de outrora?  Que busca de significado, que anseios, que caminhos de futuro procuramos resgatar nos nossos antepassados, no seu legado, nas marcas que imprimiram na superfície do solo?

Nas palavras de Edgar Morin

“Nós somos a nossa memória. Partilhamos memórias significativas que criam a identidade coletiva”.

A memória coletiva é o tecido que dá coesão e estrutura às sociedades, conferindo um sentido de pertença e de comunidade. Por isso, a memória e as suas manifestações materiais e imateriais constituem a pedra basilar da projeção de visões de futuro partilhadas.

A memória da Branda da Aveleira habita recetáculos diversos: a paisagem cultural evolutiva e viva, patrimónios construídos múltiplos, desde as cardenhas aos fornos comunitários, documentos históricos e narrativas da história oral. Estes patrimónios testemunham um modo de vida ancestral, pautado pela harmonia e simbiose com a natureza, pela transumância como estratégia de adaptação ao meio e pelo comunitarismo como modelo de sustentabilidade socioeconómica.  

 

25 ANOS DE UM PERCURSO DE AFIRMAÇÃO DE UM TERRITÓRIO ÍMPAR

Um processo revolucionário foi encetado na década de 90 na Branda da Aveleira, aplicando de forma percursora os princípios da participação pública e do desenvolvimento local alicerçado nos recursos endógenos. Investigadores e líderes de comunidade concretizaram, ao longo de vários anos, um trabalho consistente de redescoberta de um legado em risco de desaparecimento: os testemunhos vivos e materiais da prática da transumância.

Aqui, na última das fronteiras, sangrada das suas gentes pelo êxodo demográfico massivo das décadas de 70 e 80, subsistiam ainda homens e mulheres que perpetuavam a memória do pastoreio itinerante, ascendendo com o gado às ‘Brandas’ nos meses amenos de primavera e verão e procurando refúgio nas ‘Inverneiras’ nos meses climaticamente mais agrestes.

O grande mérito desta intervenção, longa, profunda e delicada, foi o envolvimento ativo dos habitantes locais, cuja voz, memórias, expectativas e aspirações foram escutadas e respeitadas. Um verdadeiro movimento de empoderamento de populações desintegradas das redes sociais e dos centros de decisão, devolvendo-lhes a capacidade de influenciarem e contribuírem para a construção do seu futuro enquanto comunidade.

Investigadores de diversas áreas científicas uniram esforços e saberes para dar resposta ao desafio de conhecer e divulgar o valor deste território do ponto de vista geológico, botânico, arqueológico e, muito especialmente, nas dimensões antropológica e etnográfica. A dinamização de numerosos encontros, debates, conferências, visitas de campo e a edição de publicações interdisciplinares impulsionaram a projeção e visibilidade da Branda da Aveleira, contribuindo decisivamente para que conseguisse superar a invisibilidade e o desconhecimento dos seus valores, percorrendo um caminho de crescente reconhecimento da riqueza dos seus patrimónios.

O Dia do Brandeiro foi instituído através da Declaração Patrimonial da Aveleira, aquando a realização do projeto ‘Memória e Fronteira’, em 1996. Esta efeméride é assinalada todos os anos no primeiro sábado de agosto, homenageando todos aqueles que através dos tempos usufruíram das terras de altitude e nos legaram memórias singulares.

Poucas coisas serão tão importantes para os princípios e desígnios da ecomuseologia e tão decisivas para o sucesso da construção de um destino de turismo cultural como restaurar o orgulho dos seus habitantes na sua identidade.

A ECOMUSEOLOGIA COMO PROJECTO DE DESENVOLVIMENTO

A memória do Brandeiros da Aveleira é partilhada por um vasto espaço geocultural que se expande entre a Serra da Peneda e o planalto de Castro Laboreiro, dividido entre os Municípios de Melgaço, Monção e Arcos de Valdevez, onde se multiplica a presença de brandas e inverneiras, conferindo-lhe, pelas práticas culturais associadas, uma matriz identitária comum, a qual consubstancia o capital basilar da ecomuseologia.

É este espaço geocultural mais vasto que poderá dar escala e projeção a um verdadeiro Ecomuseu da Transumância, constituído por núcleos temáticos distintos, reflexos das singularidades de cada local, múltiplos patrimónios, diversos itinerários culturais e paisagísticos, uma agenda de dinamização cultural e turística comum, um projeto de desenvolvimento agregador.

Os Ecomuseus, também conhecidos como Museus do Território ou Museu Integral, emergem como o paradigma de ação que promove a preservação, ressignificação e capitalização da memória e identidade, no quadro de um projeto de desenvolvimento integrado, que apenas pode ser efetivado pela mobilização da comunidade. 

O conceito de Ecomuseu surge em conversa entre Hugues de Varine e o conselheiro do secretário do ambiente de França. Estava em curso a organização da IX Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus / International Council of Museums (ICOM), centrada no tema “O Museu a Serviço do Homem, Actualidade e Futuro –o Papel Educativo e Cultural”, realizada em 1971.  Assistia-se ao nascimento da ecologia enquanto ciência, lançando os primeiros alertas sobre o uso sustentável dos recursos naturais. A questão do desenvolvimento, a missão da ciência ao serviço da sociedade e a educação como peça-chave para a construção do futuro encontravam-se no centro do debate público e intelectual. Varine, então secretário do ICOM, manifestava preocupação com a relação do Homem com a Natureza e com a função dos museus na sociedade, lançando como linha de pensamento vanguardista a ideia de que o museu deveria centrar-se no território na sua relação com uma população que se mobiliza a partir das suas memórias.

Em Portugal, a ideia de Ecomuseu é introduzida em finais dos anos 70 por Hugues de Varine, à época conselheiro cultural da embaixada francesa em Lisboa, destacando-se como projetos pioneiros o Ecomuseu do Seixal, o Museu Etnográfico do Monte Redondo, o Ecomuseu do Barroso, do Zêzere, da Lousã, de Rio Maior, o Museu da Comunidade da Batalha ou ainda o Museu de Mértola.

O conceito de Ecomuseu integra a maioria dos propósitos convencionalmente atribuídos aos museus tradicionais, ambicionado, porém, ser um elemento ativo no desenvolvimento da região em que se insere, assumindo-se como catalisador da estratégia de desenvolvimento integrado e sustentável do território.

O Ecomuseu desenvolve-se num espaço aberto, que se oferece à exploração e interpretação através de uma narrativa que articula o património ambiental e cultural. Alicerçando-se na relação das pessoas com o seu território, o ecomuseu define-se como um espaço onde a presença humana delineou historicamente a organização socioeconómica dos recursos, modelou a paisagem, imprimiu marcos de modos de vida ancestrais, sendo um contexto de representatividade da identidade da população.

A relação dialética entre território e população, e a paisagem cultural enquanto produto desta, constituem o património primário de um Ecomuseu.

Partindo desta matéria-prima vital, o Ecomuseu distingue-se, antes de mais, por ser um processo dinâmico, que conjuga a produção e disseminação de conhecimento; a investigação, educação e sensibilização; a mobilização da comunidade; o planeamento estratégico e o ordenamento do território; a construção de redes entre atores e parceiros; a preservação do saber-fazer arcaico, promovendo a formação e a transmissão intergeracional; o estímulo à economia de base local, alicerçada em recursos endógenos e modos de produção tradicionais; a construção de produtos turísticos diferenciados e sustentáveis, no plano ambiental e socioeconómico e, por fim, a comunicação do espaço geocultural, no quadro de uma estratégia de Marketing Territorial, alicerçada na cultura única e irrepetível de um povo.

É esta a enorme aventura que abraça o povo da Branda da Aveleira, no caminho da constituição de um Museu do Território da Transumância, mostrando, uma vez mais, saber fazer do orgulho na sua identidade uma ponte para um futuro que honra os seus antepassados. 

Homenagem aos meus avós, nascidos na aldeia do Telhado, Serra do Barroso, Montalegre.

O que nos faz regressar
a uma montanha encrespada
a um planalto inalcançável
à nascente bravia do corgo?
As telhas vigilantes envelhecem ao sol
e as paredes graníticas permanecem de atalaia
velando a partida dos filhos da casa, um por um.
As águas correm soltas da mina da Franjoseira
regando a vida dos campos onde germinam
silenciosos os tubérculos da memória.
Por detrás da chaminé da cozinha grande
ardem ainda os frutos selvagens da velha ameixoeira.
O tanque secou, de vozes e risos e passos no caminho
O tanque secou e apetece-me chorar: gotejar saudades.
Corro em busca desse afago terno do linho-de-raposa
para me enxugar nos braços do chão.

Andreia Cristina Amorim Pereira