Dia do Brandeiro 2022: A visão cinematográfica de Luís Borges


João Martinho


Este ano, o Dia do Brandeiro voltou a realizar-se nos moldes habituais, com reforço da programação para os dois dias, no fim-de-semana de 6 e 7 de Agosto.

Um dos momentos altos da programação, além da habitual sessão em que se recordam memórias dos brandeiros, pelo Dr. Rodrigues Lima – e este ano também com a intervenção da Geógrafa Andreia Amorim Pereira, que apresentou o tema “Branda da Aveleira: da transumância às novas itinerâncias do conhecimento e do turismo” – é o Cortejo Etnográfico sobre a transumância.

O jornal A Voz de Melgaço tem divulgado fotos de anos anteriores deste evento em edição impressa e nas redes socias também com vídeo, mas este ano privilegiamos o olhar de Luís Borges, o “fotógrafo solitário”, como caracteriza Isabel Domingues, que assina o texto abaixo, que escolhe o preto e branco para captar a essência dos momentos e expressões, com mestria para fazer disparar o obturador em momentos especiais.

Há a expressividade fotográfica digna de um filme de Serguei Eisenstein (ainda que referir cineastas do tempo do império russo no momento actual possa ferir suscetibilidades) e certamente contribuirão para o espólio de memórias desta iniciativa que, no âmbito do programa Melgaço em Festa, visa promover a análise e importância do passado do povo que outrora tirava da montanha parte substancial do seu sustento.

 

As caminhadas “matutinas e solitárias” para captar a “alma da montanha”


Por Isabel Domingues


Luís Borges nasceu numa aldeia de Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança, onde viveu de perto com a realidade do pastoreio.

Essas vivências nortearam sempre a sua forma de “ler” as paisagens e as pessoas do meio rural. Não é, por isso, de estranhar que dedique parte do seu tempo livre ao que denomina de “fotografia rural”, em contexto do Parque Nacional Peneda Gerês (PNPG).

Além da fauna e da flora do parque, fotografa também o trabalho das pessoas da região, as suas vivências e tradições. Sente uma ligação emocional à terra, tanto que confessa ter dificuldade em apontar a objetiva a outros assuntos. 

É considerado o “fotógrafo solitário” pois as suas incursões pelas vastas montanhas do PNPG são geralmente matutinas e solitárias. Chega a efetuar jornadas de 30 quilómetros para captar a “alma” da montanha. Neste contexto, paisagens, plantas e animais constituem o palco para a sua objetiva.

Costuma-se dizer que “quem anda por gosto não cansa” e Luís Borges usa a câmara fotográfica para projetar os seus sentimentos na captação da essência daquilo que o rodeia. E fá-lo como ninguém! De uma forma discreta, silenciosa.

Foi assim que chegou à Aveleira no Dia do Brandeiro, onde se celebrava a cultura da transumância. Situada às portas do PNPG a Branda representa a tipicidade desta região e o modo de vida de uma época. A paisagem e o conjunto arquitetónico desta aldeia – onde se destacam as cardenhas – representam uma tradição de grande valor antropológico que a torna especial e singular. Luís, sem fazer notar a sua presença, captou essa singularidade num conjunto de fotografias que não deixaram ninguém indiferente. 

É colaborador do projecto “O Gerês”, que é seguido no Facebook por mais de 30 mil pessoas e as suas fotografias já foram distinguidas pelos curadores da edição portuguesa da National Geographic múltiplas vezes.

No livro “Norteando”, Luís Borges juntou o seu talento e a paixão por Trás-os-Montes a Amadeu Ferreira, “o pai do mirandês”, com fotografias únicas, que dão a conhecer a beleza da fauna e da flora nortenhas, o gado e seus pastores, paisagens deslumbrantes, a geometria das refrescantes gotas de água do Verão e dos cristais que se formam no Inverno, homens e mulheres em trabalhos do campo e da casa já quase esquecidos, as tradições do Entrudo, monumentos perdidos no tempo, o sorriso de rostos enrugados.

Amadeu Ferreira deu voz a essas imagens, escrevendo textos, ora em prosa, ora em verso, a maioria em português, alguns em mirandês, que são um verdadeiro deleite e um importante registo de memórias. 

Actualmente, está a colaborar num projeto de investigação, em Melgaço, que visa a preservação das tradições do concelho, muito focado nas pessoas, no trabalho em comunidade e em histórias de vida, lançando raízes para as novas gerações. Daqui, resultarão várias publicações, exposições e oficinas temáticas.